15.4.05

Dormente

O sono vem devagar. Sem pressas. Dias seguidos que sonhei contigo. Por isso tenho medo de dormir. Por isso, o sono vem devagar. Devagar, a impor-se à resistência que conscientemente lhe edifico. Ganha, ele ganha sempre. Todas as noites temo, todas noites clamo por descanso onde só podes inexistir.
A tua presença moldou-se em tormento. A tua presença que era o céu na terra; ou talvez minta, talvez nunca o tenha sido, talvez eu assim tivesse querido que fosse. Perenemente afastada de mim, nesta ruptura sem reversão, permaneces inalteradamente presente. Não sei se te odeie ou ame. Confundes-me. Ou sou eu que me confundo. Porque vives? Porque existes ainda tão viva em mim? Perdi a conta de quem responsabilizar; se eu, se tu. Se ninguém, o mais certo.

O sono vem devagar, devagar ainda que determinado a executar a sua missão. Não lhe é possível resistir, a este dogma também ele constituinte dos quotidianos. Se não os vences, aflora-os como aliado. Participa dele, insinua-lhe que queres sossego, negocia. Cedes aqui e ali, alvitrando que surgirá com espontânea naturalidade, provendo-te da promessa que amanhã despertarás sem recordar que também aquele sagrado monstro que ela foi – é – não esteve presente.
Podes então, neste armistício, vislumbrar o firmamento que paira por cima de todas as cabeças, recolher ao ninho, desejar-te num sussurro uma boa-noite, e abraçar um sono que vem mais célere que outrora. Em breve será manhã.